Planta e memorial descritivo georreferenciados: por que são essenciais na usucapião
- Adauto Costa

- há 8 horas
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A apresentação de planta e memorial descritivo georreferenciados é uma das etapas mais importantes para a correta identificação de um imóvel em processos de usucapião e regularização fundiária.
Esses documentos não servem apenas para demonstrar o formato do terreno. Eles permitem determinar onde o imóvel está localizado, quais são seus limites, qual é sua área e como ele se relaciona com os lotes vizinhos e com o patrimônio público.
Sem essa identificação espacial, pode existir uma descrição aparentemente completa, mas incapaz de individualizar o imóvel com segurança.
O que são planta e memorial descritivo georreferenciados?
A planta georreferenciada é a representação gráfica do imóvel vinculada a um sistema de coordenadas.
Ela deve apresentar a poligonal, os vértices, as dimensões, os confrontantes, a orientação, a área e as demais informações necessárias à interpretação do levantamento.
O memorial descritivo apresenta os mesmos limites de forma textual. Nele são descritos os segmentos do perímetro, os vértices, as coordenadas, as distâncias e os confrontantes.
Quando produzidos corretamente, os dois documentos representam o mesmo imóvel.
A planta não pode indicar uma área enquanto as coordenadas formam outra. O memorial também não pode localizar a propriedade em endereço diferente daquele determinado pela poligonal.

Por que uma planta baixa não identifica um imóvel?
A planta baixa representa normalmente a distribuição interna de uma edificação: paredes, cômodos, portas, janelas e áreas construídas. Ela pode demonstrar como a construção está organizada, mas não informa necessariamente onde o terreno está localizado.
Também existem plantas de situação muito simplificadas, sem coordenadas, confrontantes ou referências suficientes para posicionar a propriedade.
Esses documentos podem integrar um processo, mas não substituem a planta cadastral georreferenciada.
Para individualizar territorialmente o imóvel, é necessário definir a posição de seus vértices e o posicionamento completo da poligonal.
Planta e memorial descritivo georreferenciados na usucapião
A usucapião pode reconhecer a aquisição da propriedade em razão do exercício prolongado da posse, desde que os requisitos legais aplicáveis sejam demonstrados. Entretanto, antes de reconhecer a propriedade, é necessário saber exatamente qual área está sendo discutida.
A posse relatada pelas partes precisa ser relacionada a uma parcela territorial definida. Caso contrário, não será possível verificar se o imóvel descrito corresponde à área efetivamente ocupada.
A Constituição Federal estabelece que imóveis públicos não podem ser adquiridos por usucapião.
Por esse motivo, a delimitação técnica deve permitir a verificação de eventual sobreposição com ruas, praças, áreas verdes, equipamentos públicos e outros imóveis pertencentes ao poder público.

O que muda quando o imóvel está em um loteamento?
Nos loteamentos registrados, determinadas áreas previstas no projeto e no memorial descritivo passam a integrar o domínio municipal. O artigo 22 da Lei nº 6.766/1979 inclui, entre essas áreas, vias, praças, espaços livres e áreas destinadas a edifícios públicos e equipamentos urbanos.
Assim, não basta verificar os muros existentes atualmente.
É necessário comparar o levantamento do imóvel com o projeto legal do loteamento. Um muro pode ter sido construído fora do limite aprovado, avançando sobre outro lote ou sobre uma área pública.
O limite físico observado em campo e o limite jurídico constante do loteamento podem ser diferentes.
Usucapião e Reurb são a mesma coisa?
Não. A usucapião e a Regularização Fundiária Urbana possuem fundamentos, procedimentos e finalidades próprias.
Apesar dessa diferença jurídica, ambas dependem de uma identificação territorial confiável. Na Reurb, cuja principal legislação é a Lei Federal nº 13.465/2017, exige-se elementos como medidas perimetrais, área total, confrontantes e coordenadas georreferenciadas dos vértices definidores dos limites.
Os mesmos elementos são tecnicamente importantes na usucapião, especialmente quando é necessário verificar se a área pretendida invade um imóvel vizinho ou um bem público. Utilizar critérios técnicos semelhantes não significa confundir os dois institutos. Significa aplicar procedimentos cartográficos capazes de produzir uma delimitação objetiva e verificável.
Por que os sistemas de coordenadas precisam ser compatíveis?
Uma comparação geoespacial somente é confiável quando os dados utilizados estão no mesmo sistema de referência ou foram corretamente transformados.
Quando a planta do imóvel utiliza um sistema e a base do loteamento utiliza outro, as duas informações podem aparecer deslocadas.
Também podem ocorrer erros quando o profissional não informa o datum, confunde coordenadas geográficas com coordenadas projetadas ou troca a ordem dos valores.
Para comparar o imóvel levantado com a base cadastral, ambos precisam estar referenciados de forma compatível.
Essa compatibilidade permite identificar:
sobreposição com lotes confrontantes;
ocupação de ruas ou áreas públicas;
deslocamento da poligonal;
incompatibilidade entre endereço e coordenadas;
diferenças entre a área declarada e a calculada.

O memorial descritivo garante que o levantamento está correto?
Não necessariamente. Um memorial pode apresentar coordenadas formalmente organizadas e ainda conter erros de digitação, sistema de referência, sequência dos vértices ou cálculo da área. Por isso, a documentação precisa ser submetida a uma análise técnica.
O analista deve reconstruir a poligonal, calcular sua área, verificar seu fechamento, avaliar a correspondência com a planta e comparar o resultado com as bases territoriais disponíveis.
A análise precisa ser objetiva e reproduzível. Outro profissional, utilizando os mesmos dados e métodos, deve conseguir chegar a resultados compatíveis.
Documentos coerentes reduzem riscos
A apresentação de planta e memorial descritivo georreferenciados ajuda a responder perguntas fundamentais:
Onde o imóvel realmente está?
Qual área está sendo objeto da ação?
Quais são os seus confrontantes?
A poligonal invade outro lote?
Existe ocupação de rua ou área pública?
O endereço informado corresponde às coordenadas?
Quando essas perguntas não podem ser respondidas, a regularização pode permanecer inconclusiva até que a documentação seja corrigida.
O georreferenciamento não é apenas uma exigência formal. Ele é o instrumento que permite relacionar a narrativa jurídica da posse com uma parcela real e determinada do território.







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